FLA Araru debate ancestralidade e identidade em busca de uma educação mais inclusiva
Bárbara Carine e Márcia Kambeba abriram o circuito de palestras com discussão sobre ciência, saberes originários, território e novas formas de pensar a educação.
por Cláudia Almeida
Publicado em
14/08/2026 às 20:44
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A relação entre ancestralidade, identidade e educação marcou a abertura do circuito de palestras da FLA Araru 2026, nesta sexta-feira (14), em Araruama. As escritoras Bárbara Carine e Márcia Kambeba participaram do encontro “Vida ancestral e identidade: ciência, ancestralidade e saberes originários por uma educação mais orgânica, inclusiva e decolonial”, que lotou o auditório da tenda principal. A conversa teve mediação de Vagner Amaro.
Mais do que falar sobre literatura, as escritoras partiram de suas próprias trajetórias para discutir como diferentes formas de conhecimento podem contribuir para uma educação que reconheça identidades, territórios e saberes historicamente colocados à margem.
Ancestralidade como parte da identidade
Bárbara Carine, que influencia nas redes sociais com o perfil "Uma intelectual diferentona", é doutora e foi professora da Universidade Federal da Bahia. No currículo, ela traz com orgulho a criação da primeira escola afro-brasileira do país e 15 livros publicados.
Ao falar sobre a construção da identidade e sua relação com território e ancestralidade, a escritora contou que sua própria história familiar está ligada à resistência da população negra e relatou como essa origem passou a ocupar um lugar importante em sua trajetória.
“Nosso território vem de uma construção social. Minha mãe veio de um quilombo da Bahia. Mucambo dos negros. Eu me reintegro a eles. Sou mulher negra, nordestina, escritora e uma intelectual diferentona."
A escritora também compartilhou como o contato com obras de autores negros modificou sua maneira de compreender o mundo. Para Bárbara, essas referências foram fundamentais para questionar uma formação marcada por uma perspectiva colonial.
“Eu comecei a ter uma forma diferente de pensar o mundo. Eu buscava validação de brancura e algumas literaturas de pessoas negras foram obras importantes no processo de ruptura colonial, da narrativa europeia.”
A literatura apareceu, assim, como uma ferramenta para ampliar referências e permitir que outras experiências e perspectivas também ocupem espaços de conhecimento e formação.
“A ancestralidade está presente”
Márcia Kambeba trouxe para o debate a perspectiva dos povos originários e a relação entre memória, território, educação e identidade. Logo no início de sua participação, destacou que sua presença no encontro também carregava a memória de seus antepassados.
“Não estou sozinha aqui, a Ancestralidade está presente", disse a escritora, que também falou sobre a violência sofrida por mulheres indígenas, tema presente em sua obra "Índia, eu não sou", e citou escritoras que fazem parte de suas referências, como Cora Coralina e Conceição Evaristo.
Mas sua primeira referência literária, como contou, surgiu dentro da própria família. “Tenho muitas referências na literatura. Mas a minha avó foi minha primeira poeta, dona Assunta, me apresentou as letras e as músicas.”
Educação sem “caixinhas”
A discussão sobre educação esteve entre os principais pontos do encontro. Márcia Kambeba defendeu uma visão capaz de integrar diferentes saberes, experiências e formas de conhecimento, em vez de separá-los em estruturas rígidas.
“Educação não pode colocar tudo em caixinhas, educação é a que pensa o todo e que tudo está junto e interligado.”
A partir dessa perspectiva, o território também foi apresentado como espaço de aprendizagem. Para a escritora, ele não representa apenas uma localização geográfica, mas carrega memória, conhecimento, identidade e ensinamentos transmitidos entre gerações.
A discussão também colocou em evidência a importância dos saberes originários dentro dos processos educacionais e a necessidade de ampliar o olhar sobre quais conhecimentos são reconhecidos e valorizados na formação das novas gerações.
Literatura, ciência e saberes originários
Com o auditório lotado, Bárbara Carine e Márcia Kambeba transformaram suas experiências pessoais e literárias em uma discussão mais ampla sobre pertencimento, identidade e educação.
O encontro abriu o circuito de palestras da FLA Araru colocando no centro do debate a possibilidade de aproximar ciência, literatura e saberes ancestrais para construir uma educação mais inclusiva, conectada aos territórios e aberta a diferentes formas de conhecimento.
A programação da FLA Araru segue até segunda-feira (17), na Praça Antônio Raposo, no Centro de Araruama, com atividades gratuitas de literatura e cultura.