Quando Moisés, de 24 anos, começou a dar socos na própria boca por causa de uma forte dor de dente, a preocupação da mãe, Lílian Franco de Andrade Machado, aumentou. Diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) em grau severo, não verbal e com uma síndrome que provoca crises convulsivas, ele passou a apresentar episódios ainda mais frequentes. O alívio veio por meio do atendimento odontológico hospitalar oferecido pela Prefeitura de Araruama, que realizou a cirurgia necessária no Hospital Municipal Jaqueline Prates.
"Se uma dor de dente já é difícil para qualquer pessoa, imagine para alguém que não consegue falar ou explicar o que está sentindo. Com a dor, as convulsões se intensificaram", relatou a mãe do jovem, Lílian Franco de Andrade Machado.
Após avaliação da equipe da rede municipal de Saúde, exames identificaram um dente incluso que precisava ser removido. Diante da condição clínica do paciente, a cirurgia foi organizada rapidamente e realizada na última sexta-feira (10), sob anestesia geral.
Serviço é referência na Baixada Litorânea
Araruama é o primeiro município da Baixada Litorânea a disponibilizar esse tipo de atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O serviço é destinado a pacientes que, após avaliação especializada, apresentam indicação clínica para realizar procedimentos odontológicos em ambiente hospitalar.
Segundo a superintendente municipal de Odontologia, Gabriela Matias, o tratamento é indicado quando não há condições de realizar os procedimentos com segurança em consultório.
"O atendimento é destinado aos casos em que o tratamento convencional em consultório não pode ser realizado com segurança. Além dos procedimentos cirúrgicos, durante a mesma anestesia podem ser realizados outros tratamentos odontológicos necessários, como limpezas, restaurações e extrações, reduzindo o desgaste físico e emocional dos pacientes e proporcionando mais tranquilidade às famílias", explicou.
"Agora ele vai direto para casa", diz mãe
Para Lílian, o atendimento representa uma mudança significativa na vida da família. Oito anos atrás, Moisés precisou viajar até a Baixada Fluminense para realizar uma cirurgia semelhante, enfrentando um deslocamento considerado desgastante por causa do autismo severo.
"Foi muito difícil. Qualquer mudança de rotina é um desafio para quem tem autismo severo. Fazer esse serviço aqui é uma tranquilidade enorme. Agora, o Moisés vai sair direto para o conforto da casa dele. A equipe teve uma sensibilidade enorme e antecipou a cirurgia. Foi um alívio", relatou.
Fundadora da Associação de Mães e Pais de Crianças Especiais (AME), que reúne cerca de 165 famílias em Araruama, Lílian afirma que o atendimento representa uma conquista coletiva para quem convive diariamente com pessoas que precisam desse tipo de assistência.
"Muitos não conseguem permanecer em uma cadeira odontológica pelo tempo necessário para um tratamento. Ter esse atendimento em Araruama significa não precisar viajar quilômetros com eles sentindo dor e saber que serão acolhidos por profissionais preparados. Para nós, mães atípicas, isso representa respeito, acolhimento e mais dignidade aos nossos filhos."