A 5ª Feira Literária de Araruama (FLA Araru) ganhou, neste domingo (16), um daqueles momentos capazes de ultrapassar os limites do palco e permanecer na memória de quem assiste. O espetáculo “Negra Palavra, Solano Trindade”, do Rio de Janeiro, levou ao público uma experiência teatral marcada pela poesia, pela música, pela percussão corporal e, sobretudo, pela reflexão sobre o racismo e a necessidade de enfrentá-lo.
Criado pelo Complexo Negra Palavra, em parceria com o Coletivo Preto e a Companhia de Teatro Íntimo, o espetáculo celebra a vida e a obra do poeta pernambucano Solano Trindade (1908–1974). Em cena, nove atores fazem da própria voz e do corpo instrumentos de criação artística, construindo uma apresentação vibrante que combina literatura, teatro e música.
E há um diferencial que conquista logo a plateia: os atores não ficam presos à distância tradicional entre palco e público. Eles interagem, provocam, conversam e estabelecem uma relação direta com quem está assistindo. A quebra dessa barreira torna o espetáculo mais leve, próximo e envolvente.

Durante pouco mais de uma hora, os artistas conseguiram manter a atenção do público e, mais do que entreter, fizeram um convite à reflexão.
O diretor do Negra Palavra, Renato Farias, destaca que o teatro e a poesia têm justamente essa capacidade de despertar o público e tirá-lo de uma posição de passividade. Para ele, o espetáculo busca provocar esse despertar e transformar a reflexão em atitude.
“O teatro e a poesia têm a função de acordar as pessoas. O que a gente quer com esse espetáculo é justamente despertar esse olhar, fazer com que as pessoas percebam que ainda há muito a ser feito e que essa consciência precisa se transformar em ação antirracista.”

Negro, poeta, folclorista, teatrólogo e militante da cultura negra, Trindade dedicou sua trajetória à valorização da identidade e da cultura afro-brasileira. Sua obra rompeu com o silenciamento imposto historicamente à população negra e colocou no centro da literatura a experiência, a cultura e a resistência de um povo.
Ao trazer Solano para o palco, “Negra Palavra” mostra que seus versos não pertencem apenas ao passado. Eles continuam dialogando com o presente e ajudam a iluminar questões que permanecem urgentes.
A apresentação também reforçou o papel da educação e da cultura como instrumentos de transformação. Para a secretária de Educação de Araruama, Valéria Amaral, o momento representa uma oportunidade de ampliar perspectivas e estimular uma sociedade mais consciente.
“Não há mais espaço para tanto preconceito, e a educação é o melhor caminho para mostrar isso. Vivemos um momento histórico em Araruama e precisamos abrir um novo olhar para o mundo. A gente quer um movimento de resistência", concluiu.
