A primeira palestra da edição 2025 da Araruama Literária começou com uma roda de conversa com com Daniel Munduruku e Arassari Pataxó, com o tema “Identidade e território: povos silenciados pelo colonialismo/eurocentrismo”, mediada por Thayná Álvares.
Daniel Munduruku é escritor e professor paraense e autor de 54 livros.
Arassari Pataxó é cacique e artista plástico, graduado em direito e ativista dos povos indígenas. Ambos
compartilharam saberes ancestrais, reflexões profundas e denúncias sobre os desafios contemporâneos enfrentados pelos povos originários.
Arassari Pataxó abriu o encontro destacando a importância de ocupar espaços de fala e agradeceu o convite e a iniciativa da prefeita Daniela Soares por trazer povos indígenas para debaterem na feira literária.
Ele abordou questões urgentes como os conflitos em sua aldeia, o racismo institucional e o impacto da exploração mineral: “
A minha aldeia está em conflito. Perdemos quatro lideranças Pataxó. Isso é resultado do racismo institucional e do descaso com os nossos territórios", disse, emocionado.
Arassari também denunciou o avanço da exploração mineral sobre terras indígenas e os impactos ambientais e sociais dessa prática: “Os maiores minerais estão em territórios indígenas. Agora dizem que precisam tirar os indígenas para explorar essas riquezas. Mas para nós, a verdadeira riqueza é manter a floresta em pé.”
Além das denúncias, ele trouxe reflexões sobre a educação e os saberes tradicionais: “No meu povo, a criança participa de tudo. É fundamental estar com a família. A ancestralidade fortalece as nossas crianças.”
Daniel Munduruku reforçou a importância da literatura indígena como instrumento de resistência e aproximação. E ressaltou a participação dos avós na formação das crianças indígenas. "Os avós são oráculos vivos. São eles que ligam o passado ao presente contando histórias.” Ele também destacou a relação dos povos originários com a infância e a natureza: “A criança indígena já é tudo. Não perguntamos o que ela será quando crescer, cabe aos adultos prepararem o caminho.”
O escritor, que já publicou livros no Brasil e no exterior, questionou sobre a educação ministrada nas escolas brasileiras. “Será que os professores estão preparados para trabalhar a questão indígena nas escolas?” A pergunta, incisiva, levantou reflexões sobre o cumprimento da legislação que prevê o ensino da história e cultura indígena nas escolas e sobre o racismo estrutural ainda presente no sistema educacional.
“A infância não vivida vai cobrar depois. A creche é uma ideia desumanizadora. A mãe deveria poder estar com o filho, como acontece nas nossas comunidades,” afirmou Daniel, chamando atenção para os contrastes entre a educação indígena e o modelo urbano.
Na última parte da palestra, ambos reforçaram a urgência de combater o colonialismo contemporâneo e reconhecer a riqueza dos saberes tradicionais.
O encontro reafirmou o papel fundamental dos povos indígenas na construção de uma sociedade mais justa, na preservação do meio ambiente e na valorização da diversidade cultural por meio da literatura e da educação.